Nutrição de suínos é simples — o resto é ruído
Existe uma percepção comum entre não-nutricionistas de que nutricionistas formulam dietas complexas, dominam “truques mágicos” e vivem imersos em matemática. A verdade é diferente: a grande sacada do nutricionista não é a melhor fórmula, mas a ração certa, no caminhão certo, no tempo certo, no comedouro certo, para os leitões certos. Feed execution — como dizem os nutricionistas — importa mais que qualquer fórmula sofisticada.
Este e-book apresenta o 80/20 da nutrição suína do ponto de vista da formulação: o que realmente importa e o que você deve priorizar. Foi escrito para veterinários, zootecnistas, agrônomos, gerentes de produção, consultores e produtores — não para nutricionistas.
“A nutrição de suínos é simples. Alguns nutricionistas é que são complicados.”
Alguns pontos antes de entrar na pirâmide
- Desmame: ao contrário do que muitos acreditam, a performance das duas primeiras semanas pós-desmame não dita o resto da vida do leitão. O grande objetivo dessa fase é garantir a sobrevivência. Cada 1% de mortalidade do desmame ao abate reduz entre R$ 2,00 e R$ 4,00 de receita por leitão enviado ao frigorífico.
- Variação de peso: é extremamente difícil alterar a variabilidade de peso via nutrição. Leitões nascem com CV de 22–25% e são abatidos com 10–12% — metade dessa variação é “consertada” pela natureza, e o restante é ajustado por estratégias de carregamento, não por formulação.
A Pirâmide da Nutrição Suína para Não Nutricionistas
O conceito da pirâmide mostra o que é mais importante — do ponto de vista econômico e do tempo que o nutricionista deve investir. Um livro de nutrição suína tem mil páginas; sem saber quais são as mais importantes, a leitura é quase impossível para um não-especialista. A pirâmide resolve isso.
O caminho do e-book
- 1. Energia e balanço de energia
- 2. Proteína e aminoácidos
- 3. Macrominerais e fitase
- 4. Vitaminas e minerais
- 5. Aditivos alimentares
- 6. Sobre o autor
- 7. Glossário técnico
Energia e balanço de energia
A energia representa cerca de 50% do custo da dieta — é o item mais caro e um dos mais importantes. Otimizar seu uso do ponto de vista econômico é onde o nutricionista mais entrega valor.
Tipos de energia
Existem várias formas de expressar energia: bruta, digestível, metabolizável e líquida. A energia metabolizável (EM) é a mais utilizada no mundo, mas muitos países já caminham para a energia líquida (EL), que representa melhor a resposta em desempenho. Dependendo dos ingredientes, a EL corresponde a 74–76% do valor da EM.
Regra prática da gordura
De maneira bem simplista, para cada 1% de gordura adicionada na dieta há uma melhora de aproximadamente 2% na conversão alimentar e 1% no GPD. A resposta em crescimento, porém, é bem mais variável — depende de densidade, espaço de comedouro e outros fatores.
“Na nutrição de suínos, existem “horas de milhões de reais” e “horas de reais”. Calcular o nível mais econômico da energia, sozinho, provavelmente paga o salário anual do nutricionista.”
Proteína e aminoácidos
Depois de definir o nível ideal de energia, o segundo grande vetor é a lisina. Só depois de ter energia e lisina bem ajustadas olhamos para as relações dos outros aminoácidos em relação à lisina — treonina, metionina, triptofano, valina, isoleucina.
Aumentar apenas a lisina não aumenta peso corporal isoladamente. Nutrição é sobre relações: níveis absolutos importam, mas a proporcionalidade entre nutrientes é o que gera resposta.
Macrominerais e fitase
Depois de energia e lisina/aminoácidos, olhamos para o fósforo — o terceiro componente mais caro da dieta. Junto dele entra a fitase, aditivo enzimático responsável pela liberação de fósforo e cálcio.
Sem fitase, uma parcela significativa desses macrominerais não fica disponível para o suíno. As fitases das marcas reconhecidas são bem estudadas e confiáveis — por isso você a vê praticamente em todas as dietas modernas.
Relação cálcio:fósforo
Depois de definir o nível correto de fósforo, olhamos para a relação Ca:P. Existem múltiplas maneiras de expressá-la — e sim, isso confunde. O ponto essencial é considerar a liberação de cálcio pela fitase.

Aprofunde a pirâmide na pós-graduação em Produção de Suínos
Este e-book cobre o 80/20. Se você quer aplicar cada camada com profundidade — energia econômica, formulação por aminoácidos, fitase, microminerais e avaliação crítica de aditivos —, conheça a pós-graduação da Academia Suína · PPGVET.
Conhecer a pós em Produção de SuínosVitaminas e minerais
Depois dos macrominerais e da fitase, subimos mais um degrau: vitaminas e microminerais. Aqui já estamos numa camada de menor retorno econômico — o tempo investido rende menos do que na base da pirâmide, mas ainda importa.
Níveis farmacológicos vs. basais
Para zinco e cobre existem dois patamares: níveis farmacológicos (usados como promotores em fases específicas) e níveis basais — muito mais baixos, que atendem à exigência nutricional. Para os demais microminerais, o autor recomenda seguir as tabelas do fornecedor de genética.
Vitamina D e “milagres sanitários”
Vitaminas ganham atenção desproporcional de alguns veterinários que acreditam que muita vitamina D “conserta” problemas sanitários. O autor não conhece estudos randomizados peer-reviewed que sustentem essa hipótese — e está aberto a receber evidência em contrário.
Doença do coração de amora
É comum atribuir a doença do coração de amora à deficiência de vitamina E e selênio. Porém, a literatura científica não traz muitas evidências que sustentem essa relação causal — outra área em que a intuição da prática não bate com o dado controlado.
Aditivos alimentares
Aditivos são o que a maioria dos profissionais da suinocultura pensa quando se fala em nutrição. Mas, como mostra a pirâmide, aditivos são o último item a receber sua atenção — depois de energia, aminoácidos, macrominerais/fitase e vitaminas.
Dr. Márcio Gonçalves, DVM, PhD
Graduado em Medicina Veterinária pela UFRGS, trabalhou com produção comercial de suínos e conduziu pesquisas de larga escala na América do Norte e do Sul. É doutor em Nutrição Suína Aplicada pela Kansas State University. Depois do doutorado, atuou como nutricionista em uma grande companhia de genética, onde conduziu as atualizações dos manuais de nutrição de 2016 e 2018 e desenvolveu modelos para otimizar energia e níveis de lisina.
- Mais de 120 experimentos conduzidos em suínos
- TEDx Talk em Manhattan, Kansas
- Ironman Triathlon (15 horas de sangue, suor e felizmente sem lágrimas)
- Empreendedor em +8 negócios — de produção de suínos a setor imobiliário e restaurantes
- Diagramação: Iana Ferreira — graduanda em Zootecnia (UFLA), pesquisa em saúde intestinal e marketing do Grupo Academia Suína.
- Tradução: Thairê Maróstica — Médica Veterinária pela UFMG, dedicada à suinocultura desde 2016.
- Prefácio: Med. Vet. Jamil Faccin, M.Sc, Ph.D.
Obrigado por chegar até aqui
Pessoas como você — dispostas a estudar o que está por trás da rotina — são as que movem a suinocultura para frente. Se você tem dúvidas sobre nutrição, avaliação de fornecedores de aditivos ou produção suína em geral, o autor deixa o convite:
marcio@swineit.comTermos técnicos deste e-book
Forma de energia mais usada no mundo em formulação de dietas para suínos.
Representa melhor a resposta em desempenho. Corresponde a 74–76% do valor da EM.
Ganho de Peso Diário — indicador zootécnico central de crescimento.
Conversão Alimentar — kg de ração consumida por kg de peso vivo produzido.
Lisina digestível ileal padronizada. Métrica de referência para formulação em aminoácidos.
Enzima que libera fósforo e cálcio ligados ao fitato dos ingredientes vegetais.
Relação entre cálcio e fósforo na dieta — considerar a liberação da fitase (≈120% do P liberado).
A ração certa, no caminhão certo, no comedouro certo, para os leitões certos, no tempo certo.
Aplique a pirâmide na rotina — do frigorífico à granja de nucleus
A pós em Produção de Suínos do PPGVET vai além do 80/20 deste e-book: nutrição aplicada, gestão de granja, sanidade, reprodução, ambiência e análise econômica — com professores que vivem o campo.
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